Desde o início do seu mandato, o governador do Piauí, Rafael Tajra Fonteles (PT), tem mantido uma intensa agenda internacional sob o pretexto de promover o estado no cenário global, atrair investimentos e consolidar a imagem do Piauí como polo de produção de hidrogênio verde. No entanto, a recorrência dessas viagens, os altos custos envolvidos, a falta de transparência sobre os critérios das comitivas e a ausência de indicadores objetivos de retorno têm despertado críticas, inclusive entre órgãos de controle.
Entre os anos de 2023 e 2025, Rafael já realizou pelo menos 14 viagens internacionais, visitando mais de 20 países em quatro continentes. As passagens, hospedagens, eventos, diárias, alimentação e serviços de apoio vêm sendo custeados integralmente, com recursos públicos estaduais.
Segundo levantamento feito pela reportagem com base em documentos oficiais, resoluções legislativas e relatórios da SEGOV-PI, o total já gasto supera facilmente a casa dos R$ 7 milhões, ainda que nem todas as despesas tenham sido integralmente divulgadas.
Um giro global em ritmo acelerado
Em 2023, primeiro ano de mandato, o governador percorreu 14 países: China, Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos (duas vezes), Estônia, Espanha, Alemanha, Suécia, Inglaterra, Itália, Vaticano, Portugal, Croácia, Bélgica e Emirados Árabes Unidos.

Entre os destaques daquele ano:
• Viagem à Estônia e Portugal (mar/abr): Incluiu a primeira-dama Isabel Fonteles e 11 membros da comitiva. Justificativa: implantação da “Câmara de Comércio Digital Piauí-União Europeia” e parcerias tecnológicas.
• Missão à Europa (jun/2023): Espanha, Alemanha, Suécia, Inglaterra e Vaticano. Participação em fóruns sobre hidrogênio, visita à H2 Green Steel na Suécia, e audiência no Vaticano. Custos totais não informados publicamente.
• Participação na COP-28 em Dubai (nov): Integrando comitiva do Governo Federal, o governador acompanhou discussões sobre transição energética, novamente com foco no hidrogênio verde.
Em 2024, a frequência se manteve. Rafael Fonteles visitou: Índia, Singapura, Austrália, Países Baixos, Estados Unidos, Bélgica, Croácia, China, Coreia do Sul e Portugal.
A missão mais cara: China e Coreia do Sul
A viagem mais dispendiosa até agora foi a missão à Ásia em junho de 2024, com duração de nove dias. Segundo relatório oficial, a viagem custou exatos R$ 2.939.849,32 aos cofres públicos.
A comitiva incluiu o governador, a primeira-dama, o presidente da Investe Piauí, Victor Hugo, o secretário de Educação, Washington Bandeira, o diretor do DER-PI, Leonardo Sobral, e 80 empresários piauienses convidados.
Entre os gastos listados:
• R$ 770 mil em um único dia de marketing institucional
• Diárias de veículos entre R$ 11 mil e R$ 17 mil
• Hospedagens com tarifas entre R$ 2.500 e R$ 2.900
• R$ 40 mil em equipamentos de tradução simultânea
• R$ 14 mil em kits para empresários
• Alimentação variando entre R$ 19 mil e R$ 96 mil
O principal feito divulgado foi a inauguração do escritório da Investe Piauí na cidade de Xiamen, na China — medida ainda sem resultados econômicos comprovados ou parcerias divulgadas.
Tribunal de Contas também foi, mas não explicou o porquê
Outro caso que gerou controvérsia foi a participação do conselheiro do TCE-PI, Joaquim Kennedy Nogueira Barros, na missão à Índia, Singapura e Austrália, realizada em março de 2024.
Segundo informações do próprio portal do Tribunal de Contas, Kennedy recebeu R$ 43.947,09 em diárias referentes a 13,5 dias de viagem. O órgão, porém, não informou quem arcou com as passagens aéreas, alimentação ou hospedagens adicionais, nem apresentou qualquer relatório de retorno técnico ou institucional para o TCE-PI.
A participação do conselheiro foi, segundo documentos, a convite do governador. Nas redes sociais, o próprio Kennedy compartilhou fotos e vídeos da viagem, sem qualquer menção a atividade técnica concreta ou atuação institucional.
2025 repete o modelo
No primeiro semestre de 2025, Rafael Fonteles já autorizou ou realizou novas viagens oficiais:
• China (11–14 de maio), em missão vinculada à Presidência da República
• Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes (23–31 de maio), como parte da comitiva do Consórcio Nordeste e com a participação da primeira dama, Isabel Fonteles
• Portugal, Espanha, Suíça e Alemanha (03–10 de julho), para eventos como o Fórum de Lisboa, a Jornada de Projetos em Madri, e reuniões sobre créditos de carbono e hidrogênio em Genebra e Bonn
Nenhum dos relatórios financeiros dessas viagens foi divulgado até o momento.
Falta de transparência e ausência de prestação de contas
Apesar do volume expressivo de viagens e recursos envolvidos, o Governo do Estado do Piauí não mantém uma página atualizada de prestação de contas das missões internacionais.
Não há planilhas públicas com os custos individualizados de passagens, hospedagens, contratação de empresas de marketing ou logística, nem critérios objetivos para seleção de empresários convidados para as viagens.
Além disso, as metas e os resultados efetivos dessas missões — como investimentos captados, acordos firmados, empregos gerados — não são mensurados em relatórios oficiais.
A volta ao mundo e nenhum retorno
As viagens internacionais de Rafael Fonteles transformaram o gabinete do Karnak numa espécie de embaixada itinerante do hidrogênio verde, promovendo o Piauí em todos os continentes, mas sem retorno prático visível ou rastreável.
Com uma estrutura que inclui marketing milionário, diárias elevadas, agendas pouco objetivas e comitivas com parentes e aliados, o que se vê é a construção de uma narrativa de “Piauí global” sustentada pelo contribuinte estadual.
Em tempos de crise fiscal, hospitais lotados, estradas esburacadas e escolas sem estrutura, a pergunta que resta é inevitável: essa conta fecha para o cidadão piauiense?