
Jair Bolsonaro deixando a sede da PF/ Crédito: Adriano Machado/Reuters
Em um dia que ficará registrado nos bastidores da política brasileira, o ex-presidente Jair Bolsonaro classificou como “suprema humilhação” as medidas cautelares impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), após a instalação de uma tornozeleira eletrônica. A determinação foi feita pelo ministro Alexandre de Moraes, relator das investigações que apuram suposta tentativa de golpe de Estado.
Bolsonaro compareceu à Secretaria de Administração Penitenciária do Distrito Federal, onde o equipamento foi colocado. Ao deixar o local, desceu do carro para falar com jornalistas e, com semblante sério, fez duras críticas à decisão do STF:
“No meu entender, o objetivo é a suprema humilhação”, afirmou Bolsonaro, destacando que considera as medidas desproporcionais e injustificadas.
Questionado sobre os motivos que levaram Moraes a impor a tornozeleira — entre eles, o suposto risco de fuga — Bolsonaro reagiu com ironia:
“Sair do país é a coisa mais fácil que tem. Mas nunca pensei em sair do Brasil, nunca pensei em ir para embaixada”, disse, acrescentando que considera um exagero a suspeita de que tentaria escapar.
Vale lembrar que, em fevereiro de 2024, o ex-presidente já havia tido o passaporte apreendido por ordem do STF, justamente para evitar uma possível evasão do país.
Em outro momento, Bolsonaro atacou a narrativa que sustenta a ação penal que investiga a tentativa de golpe:
“O inquérito do golpe é um inquérito político. Nada de concreto existe ali”, disparou.
O ex-presidente disse ainda esperar que o julgamento seja “técnico e não político”, reforçando sua confiança em uma defesa que pretende desmontar as acusações.
Além da tornozeleira, Bolsonaro está proibido de deixar a comarca do Distrito Federal, deve cumprir recolhimento domiciliar noturno (das 19h às 6h) e integral nos finais de semana, não pode acessar redes sociais nem se comunicar com seu filho Eduardo Bolsonaro, embaixadores ou diplomatas estrangeiros.
Outro ponto polêmico foi a apreensão de US$ 14 mil e R$ 8 mil em espécie na casa do ex-presidente, no Jardim Botânico, em Brasília. Sobre isso, Bolsonaro justificou:
“Sempre guardei dólar em casa. Posso comprovar a origem de todo o dinheiro.”
Já em relação ao pen drive encontrado no banheiro de sua residência, preferiu o silêncio:
“Não tenho conhecimento.”
A imposição da tornozeleira é mais do que uma medida cautelar: é um símbolo do embate entre Bolsonaro e o STF. Moraes sustenta que existe risco concreto de fuga, além de indícios que apontam para tentativa de obstrução das investigações sobre o suposto golpe. Bolsonaro, por outro lado, tenta transformar a narrativa em capital político, apresentando-se como vítima de perseguição judicial.
Enquanto isso, cresce a expectativa no mundo político: a decisão intensifica a polarização, fortalece discursos de desconfiança nas instituições e pode repercutir nas eleições estaduais de 2026 e nas articulações da direita no cronograma nacional para presidência e Senado.