
Miguel Schincariol/AFP
Depois de semanas enfrentando uma queda expressiva na popularidade por conta do “tarifaço” imposto pelo ex-presidente norte-americano Donald Trump — que atingiu setores estratégicos da economia brasileira — Jair Bolsonaro volta ao centro do debate político de forma surpreendente. A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou medidas cautelares duras contra o ex-presidente, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica, reacendeu a polarização e colocou Bolsonaro novamente no papel que mais lhe favorece: o de vítima de um sistema que, segundo seus aliados, busca silenciá-lo.
O episódio marca uma reviravolta narrativa. Até então, Bolsonaro vinha sendo duramente criticado, inclusive dentro da própria base, pela falta de reação às barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos. A cobrança por respostas efetivas fez sua aprovação entre empresários e setores do agronegócio despencar. Mas o movimento do STF mudou o jogo. A tornozeleira — vista por muitos bolsonaristas como um símbolo de humilhação — transformou-se em bandeira de resistência política. Em poucas horas, hashtags de apoio ao ex-presidente dominaram as redes, e políticos de direita correram para manifestar solidariedade.
Analistas veem no gesto do STF um erro estratégico: ao tentar restringir Bolsonaro, acabou reforçando sua narrativa de perseguição. “Quando o Judiciário passa a atuar com excessos, cria mártires”, observa um cientista político ouvido pela reportagem. Para ele, a medida cautelar, antes de reduzir a influência do ex-presidente, pode servir como catalisador para reorganizar uma direita que estava fragmentada e desmotivada após as derrotas econômicas e diplomáticas recentes.
Enquanto isso, o Planalto assiste com apreensão à recomposição do capital político bolsonarista. “O risco é real: o STF deu a Bolsonaro a vitrine que ele precisava para reativar sua base e se reposicionar para 2026”, avalia outro analista. E assim, o que parecia ser um fim melancólico depois do tropeço no comércio internacional, transformou-se em mais um capítulo da novela que mantém Bolsonaro no centro da disputa pelo poder.