
Batalha (PI), 26 mil habitantes. Economia rural, pacata e milhões em propina lavados sob as barbas da população. Um esquema de corrupção de alto nível instalado na Novacap, empresa pública do Distrito Federal, utilizava uma família piauiense como peça-chave para movimentar cifras milionárias de forma clandestina.
Um esquema milionário de corrupção instalado na Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), no Distrito Federal, utilizava uma estrutura familiar no interior do Piauí como base para lavar dinheiro de propina. A revelação é do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), que deflagrou a operação “Alta Conexão” por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
Segundo a investigação, o servidor Francisco José da Costa, lotado na Novacap, é apontado como líder da organização criminosa que desviava recursos públicos por meio de contratos fraudulentos, repasses simulados e uso de empresas de fachada. Para lavar os valores obtidos ilicitamente, ele montou um esquema doméstico: envolveu diretamente suas irmãs e a esposa, todas moradoras da cidade de Batalha (PI), com pouco mais de 26 mil habitantes.
Núcleo familiar operava a lavagem no Piauí
As irmãs Emilene Ferreira da Costa e Maria Emília Neta do Nascimento integravam o chamado “núcleo financeiro” da organização criminosa, responsável por receber e repassar valores desviados a contas de outros membros do esquema. Segundo o MP, as duas movimentaram juntas R$ 935 mil em transferências suspeitas, sempre sob ordens diretas do irmão.
As comunicações entre os familiares eram feitas por aplicativos de mensagens. Em uma das conversas obtidas pelos investigadores, Francisco escreve: “Faz um pix de 10 mil”; em outra, repreende: “Não precisa falar nome!”. Os investigadores apontam que o comando era centralizado e obedecido com precisão.
Supermercado de fachada movimentou R$ 7,4 milhões em espécie
A esposa de Francisco, Maria Bernadete Machado, também moradora de Batalha, aparece como peça-chave na engrenagem de lavagem. Ela é proprietária do supermercado “O De Casa”, que, segundo o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), movimentou R$ 7,4 milhões em dinheiro vivo entre 2022 e 2023 — um montante considerado absolutamente incompatível com a realidade econômica do município.
Relatórios apontam que o supermercado operava como fachada para escoar valores desviados de contratos da Novacap, com depósitos e saques vultosos em espécie. O MP destaca que a escolha de uma cidade pequena e distante dos centros de poder foi estratégica para dificultar o rastreamento das operações financeiras.
Porta-malas, “café” e códigos: o vocabulário da propina
O esquema usava também métodos tradicionais de ocultação de valores, como entrega em mãos e uso de códigos para marcar encontros. Palavras como “tomar um café” ou “entregar documentos” eram utilizadas para referir-se ao repasse de dinheiro. Em uma ocasião, Francisco enviou a foto do porta-malas do carro aberto, indicando o local onde o valor deveria ser depositado.
Durante o cumprimento dos mandados da operação, os agentes do Gaeco encontraram R$ 329 mil em espécie na residência de Francisco, acondicionados de forma que indicava uma contabilidade paralela não registrada.
Empresas de fachada e braço político completavam o esquema
Além da atuação familiar, o esquema contava com empresas de fachada, como a DM & Castro Engenharia, criada poucos dias antes de receber R$ 69 mil de uma empreiteira investigada. A estrutura também tinha apoio político, envolvendo pessoas com influência direta na liberação de recursos.
Uma das personagens identificadas foi a ex-servidora da Câmara Legislativa do DF, Ivoneide Souza Machado, apelidada de “25ª deputada”. Segundo o MP, ela atuava como intermediária para destravar emendas parlamentares destinadas à Novacap, recebendo em troca valores em espécie.
Em mensagens interceptadas, Ivoneide aparece cobrando repasses de dinheiro e, em seguida, enviando documentos que destravam recursos públicos para a companhia. A atuação nos bastidores era discreta, porém determinante para a liberação de verbas.
Corrupção com estrutura sistêmica e raízes no interior
De acordo com os promotores responsáveis, a organização criminosa liderada por Francisco José da Costa configura um modelo de corrupção sistêmica, que unia servidores públicos, familiares, empresários e agentes políticos em uma estrutura complexa e eficiente de desvio e lavagem de dinheiro.
O papel da família no Piauí foi considerado fundamental para a operacionalização e o mascaramento dos recursos. Longe de Brasília e do radar dos órgãos de controle, o interior do estado foi usado como refúgio discreto para movimentação de milhões de reais em propina, longe dos olhos da imprensa e das instituições de fiscalização.