
O Ministério Público do Estado do Piauí (MPPI) instaurou procedimento administrativo para investigar possíveis casos de assédio moral e acompanhar as condições de saúde mental e as relações hierárquicas em delegacias da Polícia Civil de Picos, no Sul do estado.
A medida foi oficializada por meio da Portaria nº 08/2026, assinada pelo promotor de Justiça Maylton Rodrigues de Miranda, da 6ª Promotoria de Justiça de Picos, responsável pelo controle externo da atividade policial na região.

Segundo o documento, o MP considera necessário aprofundar as apurações sobre relatos envolvendo tensão no ambiente de trabalho policial, incluindo a escuta de possíveis vítimas e representantes sindicais.
Entre os pontos destacados na portaria estão afastamentos de delegados por problemas psicológicos, situação classificada pelo órgão como “incomum e preocupante”. Conforme o procedimento, inspeções realizadas em 2025 identificaram que dois delegados estavam afastados por questões de saúde mental — número que representaria cerca de 20% do efetivo local.
O documento também menciona o falecimento do delegado Guilherme Tavares Escobar Morgado, ocorrido em Oeiras. De acordo com a portaria, ele já havia atuado em Picos e se encontrava afastado por problemas psicológicos relacionados ao exercício da função.

Na portaria, o Ministério Público afirma que o trabalho deve ser exercido em condições psicológicas adequadas e registra que “o exercício da atividade sob condições psicológicas indevidas assemelha-se ao trabalho escravo”.
O texto ainda destaca que práticas de assédio moral no ambiente policial podem funcionar como catalisadores de situações graves, especialmente pelo fato de os profissionais trabalharem armados.
Outro episódio citado envolve uma delegada que teria rasgado cartazes de uma campanha sindical voltada ao combate ao assédio moral nas unidades policiais. Para o MP, o caso pode indicar um cenário mais amplo de animosidade institucional em relação às discussões sobre saúde laboral e à atuação sindical.
Como uma das primeiras providências, o Ministério Público marcou audiência extrajudicial para o dia 29 de maio de 2026, quando deverá ser ouvido um representante da entidade sindical dos policiais civis.
O órgão também determinou o envio de ofício ao Grupo de Apoio ao Controle Externo da Atividade Policial e a comunicação do procedimento aos órgãos internos do MPPI.
O presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Carreira do Estado do Piauí (Sinpolpi), Isaac Vilarinho, afirmou que a entidade acompanha o caso e defende a criação de protocolos específicos para prevenção ao assédio moral dentro da Polícia Civil.
Segundo ele, há relatos semelhantes em outras regiões do estado e o debate sobre saúde mental entre policiais civis precisa ser ampliado.
O procedimento segue em andamento e ainda não há conclusão sobre eventuais responsabilidades.