
A reportagem do Manchete Nacional obteve acesso a 47 pareceres internos produzidos pela Coordenadoria de Comunicação Social do Estado do Piauí (CCOM-PI/SECOM-PI) referentes ao período entre o final de 2025 e os primeiros meses de 2026. Os documentos revelam um fluxo sistemático, formalizado e em escala: secretarias e coordenadorias estaduais encaminham projetos de empresas terceiras para análise técnica da SECOM antes de formalizarem os contratos de patrocínio.
O volume é expressivo. Somados os valores declarados nos cabeçalhos dos 47 pareceres, chega-se a R$ 16.959.855,00 em patrocínios. Além disso, quase todos os processos trazem uma segunda linha de valores: o chamado "Investimento de Mídia de 10%", que somado totaliza mais R$ 1.471.985,00. Se esse percentual representar um desembolso extra ao erário, o custo total poderia alcançar R$ 18.431.840,00.
Há uma distinção crucial que os próprios pareceres registram textualmente, e que se repete palavra por palavra em todos os 47 documentos: "Não cabe à SECOM aprovar ou não o patrocínio, já que os mesmos já vêm com o autorizado do Governador, ou com emendas parlamentares impositivas." Isso indica que a SECOM funciona como um filtro técnico posterior — os projetos já chegam aprovados ou vinculados por emendas. Ela analisa apenas as contrapartidas de mídia.
Isso levanta uma questão fundamental: se a SECOM não pode reprovar o patrocínio, qual é o peso real de seu parecer? E quem, na prática, decide quais empresas e quais eventos recebem o dinheiro público piauiense — antes mesmo de o processo chegar à SECOM?
De todos os 47 projetos analisados, um se destaca com folga pelo valor: o "DO PIAUÍ PARA O MUNDO II", da empresa JXP Produções de Eventos e Locações LTDA, solicitado pela SETUR-PI ao valor de R$ 2.750.000,00 do Tesouro Estadual (Parecer nº 75/2026), com mais R$ 275.000,00 em investimento de mídia — potencial total de R$ 3.025.000,00.
O projeto consiste na participação do Piauí em três feiras de turismo realizadas em outros estados: Salão do Turismo em Fortaleza/CE (27–29 de março); WTM Latin América em São Paulo/SP (14–16 de abril); e BNT Mercosul em Balneário Camboriú/SC (21–23 de maio). O objetivo declarado é posicionar o Estado como destino relevante no mercado global de turismo. A pergunta que fica: por que a Secretaria de Turismo não realiza essa participação diretamente, como muitos outros estados fazem? Qual foi o critério de seleção da JXP Produções?
Em quase todos os processos analisados, além do "Valor do Patrocínio" declarado no cabeçalho, aparece uma segunda linha: "Investimento de Mídia: R$ X (10% do valor patrocinado)." Essa linha aparece em 38 dos 47 pareceres. Nenhum deles explica a natureza jurídica ou contábil desse valor. Duas interpretações são possíveis e radicalmente diferentes:
1ª hipótese — o 10% é obrigação da empresa patrocinada: o evento se compromete a investir 10% na divulgação da marca do Governo. O custo ao erário seria apenas o patrocínio principal.
2ª hipótese — o 10% é pagamento adicional do Governo: além do patrocínio, o Estado paga à empresa para cobrir divulgação, elevando o custo total em 10%. Nesse caso o custo real seria R$ 18.431.840,00.
O caso mais emblemático é o do Documentário da 74ª EXPOAPI (Parecer 986/2025). A emenda parlamentar do Dep. Dr. Francisco é de R$ 350.000,00. O processo lista exatamente R$ 350.000,00 de patrocínio + R$ 35.000,00 de mídia. Se a emenda é de R$ 350 mil, de onde viria o adicional de R$ 35 mil? Do Tesouro Estadual? A ambiguidade é sistêmica — todos os 47 pareceres usam a mesma fórmula sem explicar o mecanismo.
Se há uma empresa que chama atenção pelo volume de participação, é a ALLURE PROMOÇÕES & EVENTOS (CNPJ: 52.481.287/0001-12), que aparece em 10 processos distintos, somando R$ 3.450.000,00 em patrocínios — além de R$ 350.000,00 em investimentos de mídia. Seus projetos cobrem um espectro inusitadamente amplo: boxe amador em três etapas, handebol, beach handball, basquete 3x3, duatlo e feiras comunitárias, distribuídos entre SIDERPI, COJUV e SECEPI.
O dado mais grave: a ALLURE é apontada como empresa investigada no TCE-PI. Ainda assim, acumulou ao menos 10 novos pareceres favoráveis da SECOM em 2025–2026. O que impede a inabilitação de uma empresa investigada pelo órgão de controle do próprio Estado?
Relação completa dos 10 processos da ALLURE:
• Parecer 002/2026 (SIDERPI): Copa The de Hand Beach — R$ 350.000,00 [Emenda Parlamentar]
• Parecer 005/2026 (SIDERPI): Copa Piauí de Handebol — R$ 350.000,00 [T. Estadual]
• Parecer 008/2026 (SIDERPI): Feira Comunidade em Ação — R$ 350.000,00 [T. Estadual]
• Parecer 018/2026 (SIDERPI): Short Run Duatlo 2026 — R$ 350.000,00 [T. Estadual]
• Parecer 62/2026 (SIDERPI): Camp. Piauiense de Boxe Amador 2026 — R$ 350.000,00 [T. Estadual]
• Parecer 83/2026 (COJUV): Feira Vale da Esperança — R$ 350.000,00 [T. Estadual]
• Parecer 86/2026 (COJUV): Copa Master de Handebol — R$ 350.000,00 [T. Estadual]
• Parecer 87/2026 (COJUV): Copa Nordeste de Basquete 3x3 – Sub 18 — R$ 350.000,00 [T. Estadual]
• Parecer 88/2026 (COJUV): Copa Teresina de Basquete 3x3 — R$ 300.000,00 [T. Estadual]
• Parecer 177/2026 (COJUV): Camp. Piauiense de Boxe Amador 3ª Etapa — R$ 350.000,00 [T. Estadual]
O processo do servidor Tiago Vasconcelos no TCE-PI é um dos casos mais emblemáticos de irregularidades em contratações públicas piauienses. Empresas ligadas a esse processo voltam a aparecer como beneficiadas nos documentos obtidos pela reportagem — em processos de 2025 e 2026, portanto, posteriores ao início das investigações.
Aparece no Parecer nº 986/2025 para a produção do Documentário da 74ª EXPOAPI, com patrocínio de R$ 350.000,00 do Tesouro Federal (Fonte 706 — emenda Dep. Dr. Francisco), solicitado pela SEAGRO-PI, mais R$ 35.000,00 em mídia. O documentário registra a 74ª edição da EXPOAPI (7–14 de dezembro de 2025, Parque Dirceu Arcoverde). A questão: se a emenda é de R$ 350 mil, quem paga o adicional de R$ 35 mil em mídia?
Aparece em dois processos da SDE-PI: "Documentário VOZES EMPREENDEDORAS" (R$ 270.000,00 + R$ 27.000,00 em mídia) e "CAPITAL DIGITAL" (R$ 320.000,00 + R$ 32.000,00 em mídia). Juntos: R$ 590.000,00 em patrocínios, potencialmente R$ 649.000,00 com a mídia. Toda a concentração ocorre na SDE-PI.
Aparece no Parecer nº 143/2025 para o projeto "ROTA 24 HORAS", solicitado pela SETUR-PI, com patrocínio de R$ 280.000,00 + R$ 28.000,00 em mídia. O projeto não descreve claramente o tipo de evento no cabeçalho — apenas o nome.
Entre os 47 projetos analisados, alguns chamam atenção não pelo valor, mas pelo nome — inusitado ou que levanta dúvidas sobre a natureza e a relevância pública do evento patrocinado.
Empresa: ELEVA SERVICOS LTDA. Evento carnavalesco de rua realizado em 14 de fevereiro de 2026 em Teresina/PI. Objetivo declarado: "realizar um evento cultural carnavalesco gratuito e acessível, promovendo a valorização da cultura popular". R$ 350.000,00 do Tesouro Estadual via Coordenadoria de Juventude para um bloco de carnaval.
Empresa: VEM EVENTHOS E PROMOÇÕES LTDA. O segundo maior patrocínio individual da lista, também via COJUV. Pré-carnaval em Floriano/PI em 7 de fevereiro de 2026. Objetivo: "oferecer cultura popular de forma gratuita com os festejos de pré-carnaval". R$ 600.000,00 para um evento carnavalesco, mais R$ 60.000,00 em mídia.
Outros nomes notáveis:
• "COPA THE DE HAND BEACH" (002/2026, SIDERPI, ALLURE investigada)
R$ 350.000,00 de emenda parlamentar. Torneio de beach handball com nome parcialmente em inglês sem sentido claro.
• "50TÃO DO ALMEIDÃO" (134/2025, CENDFOL, ACONTECE investigada)
R$ 300.000,00 para torneio de futebol de veteranos acima de 50 anos no Centro Esportivo Almeidão.
• "SUPER TORNEIO DE X1 INFANTIL" (132/2025, CENDFOL, ACONTECE investigada)
R$ 300.000,00 para torneio de futebol "um contra um" infantil.
• "BENDITO MEL PIAUIENSE – O OURO DAS ABELHAS" (009/2026, SEAGRO)
R$ 297.000,00 para projeto de apicultura. O nome poético mascara quase R$ 300 mil.
• "ZERO86 – LIGA DE FUTEVÔLEI 2026" (40/2026, COJUV, MOVER)
R$ 400.000,00 para uma liga de futevôlei. Nome numérico inusitado e valor elevado.
• "SÃO JOÃO DO HEXA" (151/2026, COJUV, ESTAÇÃO EVENTOS)
R$ 300.000,00 para evento junino com nome que mistura tradição nordestina com referência futebolística.
• "CAMPEONATO DOS 40TÕES – ARENA JR BOCÃO SPORTS" (106/2026, CENDFOL)
R$ 200.000,00 para futebol amador de veteranos acima de 40 anos.
R$ 800 mil para uma Exposição de Nelore e o domínio das duas coordenadorias
Dois padrões de concentração institucional se destacam nos 47 pareceres. A COJUV aparece como solicitante em 24 dos 47 processos, com total de R$ 5.780.000,00. A CENDFOL/PI aparece em 7 processos, somando R$ 1.790.000,00. Juntas, essas duas coordenadorias — sem status de secretaria — respondem por mais de 42% do total dos patrocínios. A COJUV tem corpo técnico para fiscalizar 24 contratos simultâneos?
Outro projeto que merece destaque individual: a EXPOINEL PIRACURUCA: EXPOSIÇÃO DE RAÇA NELORE (Parecer 150/2025), empresa AMIL EVENTOS LTDA, solicitada pela SADA-PI, com R$ 800.000,00 do Tesouro Estadual + R$ 80.000,00 em mídia. Realizada em Piracuruca/PI (23–28 de junho de 2026). R$ 800 mil para uma exposição agropecuária em uma única empresa.


1. O valor de mídia de 10% é um gasto adicional do erário?
Em cada um dos 38 pareceres que lista um 'Investimento de Mídia de 10%', o Governo deve esclarecer: esse valor é pago pelo Estado à empresa patrocinada além do valor principal? Ou é uma obrigação imposta à empresa como contrapartida? A resposta muda o custo total em mais de R$ 1.471.985,00.
2. Por que empresas investigadas no TCE-PI continuam sendo selecionadas?
ALLURE, ACONTECE EVENTOS, TOTAL COMÉRCIO, BRAZIL 86 — todas com investigações no TCE-PI — aparecem em ao menos 14 dos 47 processos, somando mais de R$ 5 milhões. Qual é o critério de habilitação? Há consulta obrigatória ao TCE antes de encaminhar os projetos?
3. Qual é o critério objetivo para selecionar os projetos patrocinados?
Existe edital público ou chamamento aberto para seleção dos projetos? Ou eles chegam exclusivamente por indicação de secretários, agenda política ou emendas parlamentares? A ausência de processo competitivo transparente favorece o direcionamento de recursos a empresas específicas.
4. A COJUV tem estrutura para fiscalizar 24 contratos simultâneos?
A Coordenadoria Estadual de Juventude solicitou 24 dos 47 processos, somando R$ 5.780.000,00. Como ela garante a fiscalização, o monitoramento de contrapartidas e a prestação de contas de tantos contratos ao mesmo tempo?
5. As contrapartidas de comunicação foram efetivamente cumpridas?
Os pareceres definem contrapartidas: veiculação da marca do Governo, inserções em rádio, banners, redes sociais etc. Há relatório de monitoramento comprovando que essas obrigações foram entregues? Onde o cidadão pode consultar esses registros?
6. Os relatórios de ROO foram produzidos?
O Decreto cita o método ROO (Return on Objectives) como ferramenta de mensuração dos resultados. Foram produzidos relatórios de ROO para os eventos já realizados? Sem avaliação de resultado, o Estado não sabe se o investimento gerou qualquer retorno.
7. Onde estão as prestações de contas das edições anteriores?
Vários projetos são denominados '3ª Edição', '4ª Edição' — as mesmas empresas receberam recursos estaduais em ocasiões anteriores. As prestações de contas foram aprovadas pelo TCE-PI? Estão disponíveis para consulta pública? Esses dados deveriam ser critério obrigatório para a concessão do patrocínio atual.