
O secretário de Comunicação do Piauí, Marcelo Nunes Nolleto, autorizou no dia 19 de maio de 2026 o repasse de R$ 600.000,00 (seiscentos mil reais) em patrocínio estatal para a 31ª Caminhada da Fraternidade, evento religioso organizado pelo Padre Tony Batista, previsto para 13 de junho de 2026 em Teresina. O valor supera em R$ 100 mil o montante solicitado pelo próprio organizador do evento.

O ofício enviado pelo Padre Tony Batista ao governador Rafael Tajra Fonteles, datado de 20 de março de 2026, é explícito: a solicitação era de R$ 500.000,00 para custeio do evento. O próprio documento manuscrito ainda registra acréscimos pedidos pelo padre após o envio inicial, como telão com som e cadeiras, o que sugere que o valor original já estava ajustado a uma demanda básica.

Apesar disso, a Autorização 2026/CCOM-PI/GAB/PROPAT, assinada pelo secretário Marcelo Nolleto, estabeleceu o patrocínio em R$ 600.000,00, sem que os documentos obtidos pelo Manchete Nacional indiquem qualquer aditamento formal, laudo técnico ou justificativa que explique o acréscimo de R$ 100 mil sobre o pedido original. O Ofício 268/2026, também assinado por Nolleto na mesma data, encaminhou o processo à Comissão de Gestão Financeira e Gestão por Resultados (CGFR) da Secretaria da Fazenda já com o valor majorado, para deliberação final.

A questão que os documentos não respondem é direta: quem decidiu ampliar o valor, com base em que critério técnico, e por que o acréscimo de R$ 100 mil não consta de nenhum requerimento formal do beneficiário?
O que torna o caso ainda mais sensível do ponto de vista do interesse público é a relação pessoal e comunitária entre o secretário Marcelo Nolleto e o Padre Tony Batista. Nolleto é frequentador da comunidade religiosa liderada pelo padre, e seu irmão, Alexandre Nolleto, serve como colaborador na mesma comunidade, sendo Ministro Extraordinário. Trata-se, portanto, de um servidor público de alto escalão autorizando o uso de dinheiro público para financiar um evento organizado por um líder religioso com quem mantém vínculos pessoais documentáveis.
A proximidade entre o Padre Tony Batista e o próprio governador Rafael Fonteles também é notória. O religioso aparece em diversas fotografias públicas ao lado do governador, o que evidencia que o evento e o seu organizador contam com apoio político de primeira linha no governo estadual.

A combinação desses elementos — vínculo pessoal entre o autorizador e o beneficiado, proximidade do organizador com o chefe do Executivo estadual e a ausência de justificativa para o valor excedente — configura um cenário que exige esclarecimentos por parte da CCOM-PI e do governo do Estado.
A 31ª Caminhada da Fraternidade é um evento consolidado em Teresina, com histórico de mobilização popular expressiva e capacidade de atrair patrocinadores privados. O próprio material de divulgação do evento exibe logotipos de entidades e empresas parceiras, indicando que a iniciativa possui fontes próprias de custeio.
Diante disso, a questão de interesse público é inevitável: em que medida um evento religioso de grande porte, com respaldo institucional de entidades privadas, necessita de R$ 600 mil em dinheiro dos contribuintes piauienses para se realizar? Quais contrapartidas de visibilidade e comunicação pública o governo do Estado receberá em troca desse patrocínio? Esses critérios foram cumpridos conforme o Decreto 22.822/2024, que regula a concessão de patrocínios pela CCOM-PI?
O espaço está aberto para que o secretário Marcelo Nolleto, a CCOM-PI e o governo do Estado se pronunciem sobre a diferença entre o valor solicitado e o autorizado, sobre os critérios técnicos que embasaram a decisão e sobre a ausência de impedimento ético para que o secretário aprovasse verbas para uma entidade à qual ele e seu círculo familiar estão vinculados.