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INSS: ONG que faturou milhões opera em cubículo de 35 m² com apenas uma funcionária

Desvio pode passar de R$ 221 milhões

Honorina Reis Melo
Por: Honorina Reis Melo Fonte: Manchete Nacional
07/12/2025 às 21h48
INSS: ONG que faturou milhões opera em cubículo de 35 m² com apenas uma funcionária
Presidente da Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura, Abraão Lincoln Ferreira da Cruz — Foto: Carlos Moura/Agência Senado

 

A Confederação Brasileira dos Trabalhadores de Pesca e Aquicultura (CBPA), uma das entidades investigadas por envolvimento na chamada Farra do INSS, funciona em uma sala de apenas 35 m², no Setor Bancário Sul, em Brasília. Segundo apuração do Metrópoles, apenas uma funcionária aparece no local e por cerca de duas horas por dia.

Mesmo sem estrutura real, quadro de funcionários ou capacidade operacional, a CBPA alcançou números milionários. Relatório da Controladoria-Geral da União (CGU) afirma que a entidade “não possui infraestrutura para localização, captação, cadastramento e muito menos fornecimento de serviços” compatíveis com o universo de associados que ela diz ter. Ainda assim, entre 2020 e 2025, conseguiu registrar 757 mil filiados.

Crescimento incompatível

Criada em 2020, a entidade firmou acordo de cooperação com o INSS em 2022, o que permitiu descontos diretos em benefícios previdenciários. Em 2023, passou de quatro para mais de 340 mil associados, faturando R$ 57,8 milhões no ano.
No primeiro trimestre de 2024, o número subiu para 445 mil filiados, gerando R$ 41,2 milhões em arrecadação.

A CPMI que investiga o caso afirma que 99% dos aposentados e pensionistas descontados não autorizaram a filiação. O deputado Alfredo Gaspar (União-AL) ironizou o ritmo de crescimento, classificando o caso como um “case de sucesso”.

A CGU aponta ainda que:

  • a CBPA teria solicitado 40 mil inclusões de descontos em benefícios de pessoas já falecidas;

  • a entidade, sem registro de funcionários na RAIS, teria inserido 17,7 descontos por minuto;

  • há suspeita de contratação ilegal de telemarketing para captar novos filiados.

Prisão do presidente da entidade

O presidente da CBPA, Abraão Lincoln Ferreira da Cruz, teve prisão decretada pela CPMI em 4 de novembro, por falso testemunho. Ele teria mentido sobre sua relação com o tesoureiro da entidade, Gabriel Negreiros — padrinho de seu neto. Durante a sessão, foi revelado também que Abraão depositou R$ 5 milhões na conta de Negreiros.

O sindicalista pagou fiança e foi liberado. A CPMI afirma que ele mentiu em pelo menos cinco momentos diferentes durante o depoimento.

Ligações políticas e influência no INSS

Abraão Lincoln já comandou o Republicanos no Rio Grande do Norte e mantém relações com lideranças regionais e nacionais da sigla. Também tinha trânsito dentro do INSS: em 2024, o ex-diretor de benefícios André Fidelis recebeu diária apenas para comparecer a uma festa da entidade. Fidelis acabou exonerado, após virar alvo da PF.

A CBPA aparece ainda como uma das entidades que pagaram o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, personagem central do esquema.

Origem do escândalo

A Farra do INSS foi revelada pelo Metrópoles em uma série de reportagens publicadas a partir de dezembro de 2023. O levantamento identificou faturamento explosivo de associações que descontavam mensalidades sem autorização de aposentados e pensionistas.

Os dados sustentaram investigações da PF e auditorias da CGU. A Operação Sem Desconto, deflagrada em 23 de abril, resultou na queda do então presidente do INSS e do ministro da Previdência, Carlos Lupi.

No total, 38 reportagens do portal embasaram as apurações policiais.

O outro lado

A CBPA e seu presidente foram procurados pelo Metrópoles por telefone e e-mail, mas não responderam até a última atualização do texto. O espaço permanece aberto para manifestações futuras.

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