
Seca afeta todo o Piauí
No mapa colorido do Monitor de Secas, o Piauí aparece como uma tela em chamas: amarelo-claro nas franjas, vermelho-escuro no miolo. Em maio de 2025, não havia respiro — 100% do território estava em algum grau de estiagem, sendo 45% em situação grave. Em Fartura do Piauí, a ironia geográfica escorre pelo cano: a água que sai dos poços tubulares não mata sede humana. Segundo o prefeito, serve para lavar roupa e abrandar a garganta de cabras. No resto do estado, as histórias se repetem.
O governo estadual, de sotaque petista, prefere o discurso digital. Fala em “monitoramento em tempo real”, exibe aplicativos, planilhas, plataformas. Mas não é no Excel que se enche uma panela. As obras que deveriam resolver o problema, como a Adutora de Jaicós — orçada em R$ 100 milhões —, caminham no compasso da burocracia: sempre em execução, nunca em funcionamento. Entre anúncios e inaugurações simbólicas, a água continua ausente. Quando chega, vem a bordo de um caminhão-pipa, política pública intermitente que depende da sorte de estacionar na porta do sertanejo.
No fim de 2024, Brasília desligou a torneira de sua única política emergencial de abastecimento no semiárido: a Operação Carro-Pipa. De uma só canetada, 1,2 milhão de nordestinos ficaram sem água. Em fevereiro de 2025, a história se repetiu — atraso de verbas, risco de 1,3 milhão de pessoas à míngua. Enquanto isso, no Planalto, o governo Lula produzia anúncios sobre “novos investimentos” e “estratégias integradas”. Estratégias que não incluíam, ao que parece, molhar a boca de quem depende de um caminhão para beber.
As cisternas, símbolo de resistência no semiárido, voltaram ao noticiário com a ferrugem das suspeitas. Em 2025, R$ 640 milhões — o maior repasse em 22 anos — foram parar numa ONG ligada ao PT. Responsável por 85% do dinheiro, a entidade já havia sido citada pela CGU: em 31% das unidades entregues, havia falhas graves. Parte dos recursos foi redistribuída para outras organizações igualmente próximas ao partido. O Ministério do Desenvolvimento Social nega favorecimento. Mas no sertão, onde água vale mais que promessa, o cheiro de coincidência não evapora fácil.
Como se não bastasse a escassez, veio a cobrança. Em maio, a Resolução CERH nº 02/2025 determinou que até quem perfurou poço artesiano com recursos próprios deveria pagar ao Estado para usar a própria água. Em agosto, durante audiência pública, a medida foi vaiada de ponta a ponta, mas confirmada. O governo fala em “gestão sustentável dos recursos hídricos”. Os pequenos produtores resumem melhor: é um imposto sobre a sobrevivência.
A seca no Piauí deixou de ser evento climático. Virou estrutura. Mas o Estado insiste na coreografia da urgência: decretos de calamidade, planos emergenciais, contratos relâmpago e obras inacabadas. No campo, lavouras se perdem, rebanhos se desfazem, famílias vivem de racionamento: um balde para cozinhar, outro para tomar banho, e muitas vezes nenhum para beber.
No sertão, a seca não é novidade. O que mudou foi a natureza da sede. Já não se trata apenas da ausência de chuva. É a sede política — aquela que drena recursos, multiplica tarifas, despeja milhões em contratos nebulosos e suspende programas essenciais. Entre a sede do povo e a sede do poder, o PT escolheu a segunda.