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Orçamento do Piauí em 26 está refém da dívida

Estado prevê quase R$ 6 bilhões em novos empréstimos para 2026, enquanto gastos financeiros já rivalizam com saúde e educação

José Ribas Netto
Por: José Ribas Netto Fonte: Manchete Nacional
08/01/2026 às 19h48
Orçamento do Piauí em 26 está refém da dívida
Rafael Fonteles, matemático e governador do Piauí

 

A Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026 do Estado do Piauí escancara, em números oficiais, um problema estrutural que vem se agravando ano após ano, dado o crescimento acelerado do endividamento e o peso cada vez maior das despesas financeiras sobre o orçamento público. Em análise detalhada dos anexos da lei revela-se que o Estado caminha para um modelo em que pagar a dívida passa a consumir recursos equivalentes — ou superiores — aos destinados às políticas públicas essenciais.

De acordo com a LOA, o governo estadual estima uma receita bruta de R$ 34,65 bilhões para 2026. Após as deduções obrigatórias, a receita líquida cai para R$ 28,84 bilhões, valor que financia toda a máquina pública estadual no próximo exercício financeiro.

 

Piauí estima R$ 34,6 bilhões em receitas, quase R$ 6 bilhões vêm de empréstimos.

 

Dentro desse orçamento, um dado chama atenção de forma imediata: as chamadas Receitas de Capital, que somam R$ 6,41 bilhões. Desse montante, R$ 5.829.368.370,00, equivalente a quase 90%, correspondem exclusivamente a Operações de Crédito, isto é, novos empréstimos a serem contratados pelo Estado ao longo de 2026.

Na prática, isso significa que o Piauí prevê financiar uma parte expressiva de suas despesas futuras não com arrecadação própria ou transferências constitucionais, mas com endividamento adicional, ampliando o estoque da dívida pública estadual.

 

O outro lado da conta, os encargos financeiros disparam

O impacto desse modelo aparece com nitidez quando se observa o quadro das despesas. A rubrica Encargos Gerais do Estado está fixada em R$ 6.501.932.323,00 para 2026. Esse grupo de despesas inclui, entre outros itens, juros da dívida, amortizações, encargos contratuais e obrigações financeiras diversas, ou seja, gastos que não geram novos serviços, obras ou políticas públicas, mas apenas mantêm o Estado adimplente com seus credores.

 

Operações de crédito somam R$ 5,8 bilhões, o Estado depende cada vez mais de dívida.

 

O valor impressiona não apenas pelo montante absoluto, mas pela comparação direta com áreas essenciais, pois em comparativo a Secretaria da Educação (SEDUC) tem despesas de R$ 3.550.076.756,00 e a Secretaria da Saúde (SESAPI), o montante de R$ 3.374.284.140,00.

Somadas, educação e saúde chegam a cerca de R$ 6,9 bilhões. Já os Encargos Gerais do Estado, sozinhos, alcançam R$ 6,5 bilhões, praticamente o mesmo patamar das duas maiores políticas sociais do Estado reunidas.

 

Encargos Gerais do Estado chegam a R$ 6,5 bilhões, quase o mesmo que saúde e educação juntas.

 

Essa comparação é central para compreender o custo real do endividamento. Cada real destinado ao pagamento de juros e encargos é um real que deixa de ser investido em escolas, hospitais, segurança pública, infraestrutura ou políticas sociais.

 

O argumento da Receita Corrente Líquida e o que fica fora da conta

Para justificar novas operações de crédito, o governo estadual costuma recorrer ao argumento da Receita Corrente Líquida (RCL), indicador utilizado pela Lei de Responsabilidade Fiscal para estabelecer limites de endividamento. De fato, a LOA aponta uma RCL estimada em R$ 19,14 bilhões para 2026, e a Dívida Consolidada Líquida projetada corresponde a 84,22% da RCL, percentual ainda dentro dos limites legais.

O problema é que essa abordagem omite uma dimensão essencial do debate, que é comparação entre o custo da dívida e os orçamentos das secretarias finalísticas. A legalidade do endividamento não elimina seu impacto político, social e econômico. Um Estado pode estar formalmente dentro dos limites fiscais e, ainda assim, asfixiar sua capacidade de investimento em políticas públicas.

 

Dívida cresce e já consome grande parte da Receita Corrente Líquida do Piauí.

 

Quanto mais empréstimos são contratados hoje, maior será, nos anos seguintes, a despesa com Encargos Gerais do Estado. Trata-se de uma dinâmica cumulativa, pois sabe-se que o endividamento gera encargos; os encargos comprimem o orçamento; a compressão do orçamento leva à justificativa de novos empréstimos.

 

Dívida cresce, resultado fiscal piora

A própria LOA reconhece o agravamento do quadro fiscal. O demonstrativo de metas fiscais aponta resultado primário negativo, tanto com quanto sem o regime próprio de previdência, além de crescimento da dívida consolidada. Grosso modo, o Estado segue gastando mais do que arrecada em despesas primárias, recorrendo à dívida para fechar as contas.

Esse cenário levanta uma questão incômoda que quanto do orçamento futuro do Piauí estará comprometido apenas com o passado, isto é, com dívidas já contraídas, deixando cada vez menos espaço para decisões políticas efetivas?

 

O papel da Assembleia Legislativa e o silêncio público

Todos esses números passaram pela Assembleia Legislativa do Piauí (Alepi). As autorizações para operações de crédito, os limites de endividamento e a própria estrutura do orçamento foram aprovados pelo Legislativo, mesmo diante do elevado volume de encargos financeiros e do crescimento contínuo da dívida.

Ainda assim, o tema raramente ocupa espaço no debate público ou na cobertura da mídia local. Pouco se discute sobre o impacto de longo prazo dessas escolhas, sobre as prioridades implícitas no orçamento ou sobre o custo social do endividamento.

 

Ano eleitoral, dever de fiscalização

Ademais, em 2026, o Estado entra em ano eleitoral. E isso torna o debate ainda mais urgente. O papel dos deputados estaduais não se resume à criação de leis, mas inclui, de forma inequívoca, o dever de fiscalizar o Poder Executivo, questionar escolhas orçamentárias e defender o interesse público.

Diante de um orçamento em que os encargos da dívida já disputam espaço com saúde e educação, a pergunta que se impõe é direta para a classe,
os deputados estaduais vão continuar sem opinar sobre o endividamento do Piauí?

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